“Das Capitanias Hereditárias à Desigualdade Regional: Quem Assume a Conta dos Ricos e dos Miseráveis no Brasil?”
*Mário Feitoza
A história do Brasil, desde os tempos das Capitanias Hereditárias, traz à tona uma questão recorrente: a desigualdade na delimitação dos territórios e o impacto dessa divisão no desenvolvimento regional. Se a história oficial muitas vezes exalta a criação das capitanias como um marco na organização do território brasileiro, as falhas nos limites, a exemplo do conflito entre Ceará e Piauí, mostram que o trabalho ficou longe da perfeição.
Essas falhas são evidentes em diversas regiões do país, com a zona sul crescendo em progressão geométrica e se tornando um polo de desenvolvimento e oportunidades. Enquanto isso, outras regiões ficaram estagnadas ou dependentes de ciclos econômicos específicos, como a borracha na Amazônia, o açúcar no Nordeste e o café em São Paulo. Mas e as regiões esquecidas, como os Inhamuns no Ceará, de onde os trabalhadores saíram em massa para São Paulo em busca de melhores condições?
Há um fator chave que parece ser ignorado na discussão sobre o desenvolvimento regional brasileiro: o papel dos empreendedores. Muito do que se construiu no Brasil, especialmente em regiões mais prósperas, se deu graças a empresários visionários que, por iniciativa própria, assumiram riscos e exploraram o potencial de áreas pouco desenvolvidas. Esses empreendedores não só criaram empregos, mas transformaram regiões inteiras, fomentando o progresso e criando redes de prosperidade.
Mas onde entra o papel do Estado? E mais, até que ponto o Estado deve interferir na riqueza gerada por esses visionários? A ideia de taxar fortunas ou heranças dos mais ricos é amplamente debatida, mas não seria mais eficiente criar uma nova abordagem, onde bilionários pudessem investir diretamente no combate à pobreza? E se esses empresários fossem incentivados a “adotar” cotas de miseráveis, promovendo educação, capacitação e desenvolvimento econômico? Isso poderia gerar uma mudança estrutural, mais eficiente do que as políticas públicas ineficazes que têm sido implementadas até hoje.
Esse cenário traz à tona uma discussão crucial: como resolver as desigualdades regionais que ainda persistem, muitas delas originadas nos tempos das Capitanias Hereditárias? Tauá, no sertão dos Inhamuns, é um exemplo claro. Como salvar uma região sem indústria, enquanto Maracanaú, a poucos quilômetros, possui centenas de fábricas? Há algo de profundamente errado nessa divisão territorial, herdada de uma história mal contada e mal resolvida.
Algoritmos não são os culpados pela migração forçada de trabalhadores do sertão para o sudeste. O problema é mais profundo e remonta à própria estrutura fundiária e à incapacidade de gestores, desde os tempos coloniais, de promover uma verdadeira integração territorial. E a história das Capitanias Hereditárias, que tantas vezes nos é contada como o início da organização territorial do Brasil, precisa ser revista com mais critério.
As disputas por terras, as migrações forçadas e o desenvolvimento desigual têm raízes históricas, sim, mas é na ação contemporânea dos empresários e na redefinição do papel do Estado que podemos encontrar soluções para esses problemas. Os ricos e os pobres no Brasil, se colocados em condições de cooperação e incentivo mútuo, podem ser a chave para transformar a desigualdade regional e promover um desenvolvimento mais equilibrado.
Assim, não se trata de taxar fortunas, mas de incentivar soluções inovadoras que integrem o setor privado à resolução de um problema crônico. A riqueza pode e deve ser um motor de mudança, e não apenas o alvo de políticas de redistribuição ineficazes.
A verdadeira história que devemos contar não é a das Capitanias Hereditárias, mas a dos brasileiros que, de fato, construíram o país e ainda têm a capacidade de transformar suas regiões mais pobres em polos de prosperidade. E para isso, precisamos de um novo pacto entre o Estado, os empresários e os cidadãos mais necessitados.
Mário Feitoza é engenheiro e administrador de empresas, com especialização em economia e finanças; agropecuarista, empresário e ex-deputado Federal.